domingo, 1 de fevereiro de 2015

Antigo e Atual esforço de retorno às Origens - Carisma Cisterciense

Voltar às Fontes do Carisma Cisterciense*






Meditar sobre o Exordio Parvo significa fazer a indagação a respeito da forma pela qual podemos viver hoje o essencial do carisma cisterciense ou sobre como voltar hoje à fonte de nossa vocação. Esta é minha preocupação com relação à Ordem Cisterciense e gostaria de retomar aqui o que exprimi por ocasião do Sínodo da Ordem em julho de 2014 e também quando estive no Capítulo Geral da Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância, em setembro de 2014. São oportunidades para prestar contas, senão da esperança, ao menos da situação real da Ordem e de seus caminhos para a eternidade. Não digo “para o futuro”, pois verdadeiramente tomei consciência, durante os últimos anos – e já o exprimi diversas vezes – , que a tentação de  “garantir nosso futuro”, de “assegurar nosso futuro”, é às vezes uma armadilha na qual caem não somente nossas comunidades frágeis e que se dizem a si mesmas ou, antes, das quais dizem os outros: “sem futuro”, mas, sobretudo, aquelas que pensam “ter um futuro” do ponto de vista quantitativo, naquela "loucura" que Cristo condenou no rico que pensa ter futuro porque seus silos estão cheios de riqueza (cf. Lc 12,15-21). Os silos estão frequentemente cheios de grãos destinados apenas ao consumo, mas não à semeadura. É do passado e mesmo do presente que se fazem estoques, que são determinados e congelados para que o futuro possa viver do passado; consumir o passado, passando a um presente estéril e egoísta, um presente sem semeadura, sem que o grão possa cair em terra, morrer e produzir frutos.

“Insensato, esta noite mesmo vai-se pedir contas de tua alma. O que ajuntaste, quem vai possuir? Assim ocorre com aquele que junta tesouros para si mesmo em vez de adquirir riquezas diante de Deus”. (Lc 12,21)

Tenho a impressão que nossas Ordens e comunidades são muito confrontadas com esta tentação, que, muitas vezes, satisfaz-se de riquezas ínfimas: “Felizmente somos ainda..., temos ainda..., para terminar em paz nossas vidas”. Tentação de “juntar tesouros para si mesmo” e não em vista dos outros e “diante de Deus”.

Lembrei isto ao Sínodo de nossa Ordem, no início de julho passado, prolongando uma reflexão feita por ocasião de uma intervenção que me foi pedida para o “Serviço das Monjas da França”, sobre a vida monástica, 50 anos depois do Vaticano II e, igualmente, tentando escutar o ensinamento do Papa Francisco na Evangelii gaudium. Creio que existem dois domínios essenciais em que nossas comunidades tornaram-se frágeis, precárias, não em relação ao número ou à idade de seus membros, nem com respeito a sua situação econômica. Estes dois domínios são a dimensão mística e a dimensão comunitária, fraterna de nosso carisma monástico e cisterciense.

Dizia que “é indispensável reencontrar a dimensão mística no coração ou, antes, na fonte de nossa vocação. Mística não quer dizer deixar a realidade, mas ser consciente da realidade total e, conseqüentemente, pôr no centro de nossa vida e de nosso coração a relação com Deus, a experiência de Deus. (...) Pois, olhando para as comunidades, sua forma de celebrar a Liturgia, sua vida comunitária, ponho diante de mim a pergunta: Essas pessoas são Cistercienses por amor do Cristo ou por uma outra razão? Será que encontram verdadeiramente Jesus? Têm uma relação viva com Ele? Vivem para Ele, com Ele, Nele?(...) Pois a mística cisterciense é uma mística bíblica, litúrgica, patrística, comunitária, eucarística, humana, esponsal, filial, fraterna, de comunhão... Devemos ajudar-nos a reencontrar esta fonte de vida para viver nossa vocação e sermos testemunhas verídicas do Cristo no meio do mundo. E devemos ajudar-nos a transmiti-la aos jovens, do contrário abusamos  de sua liberdade. Se temos vocações e as retemos abusando de motivações superficiais, para as quais os jovens sentem-se atraídos em razão da fragilidade de seu narcisismo, de seu formalismo, de seu clericalismo, isto quer dizer que nós também não temos razões profundas para seguir Cristo. Só as razões profundas tornam possível a perseverança e uma fidelidade fecunda e alegre que não tem necessidade de buscar sempre compensações para preencher seu vazio” (www.ocist.org Sínodo da OCIST 2014, Conclusões do relatório do Abade Geral).

Creio que a Igreja tem necessidade atualmente de se redescobrir Esposa de Cristo e de reencontrar, a partir desta aliança esponsal, sua verdadeira beleza, sua verdadeira integridade e, também, sua paixão maternal e fraterna pela salvação da humanidade. E a missão da vida monástica na Igreja é de manter acesa a lâmpada da Esposa que aguarda e ama o Esposo para unir-se a Ele.

A segunda preocupação que me possui relativamente à nossa Ordem é a falta de comunidade nas comunidades. E, neste ponto, o que conta não é o número. Além do mais, o número não conta nunca na Igreja. Quando é o número que conta é, então o Senhor e a unidade Nele que não contam mais. A comunidade cristã não se define pela força e por seu número, mas porque se reúne em Nome de Jesus, o que garante sua Presença entre nós.

Digo isto porque dou-me conta de que enfrentar a fragilidade com critérios mundanos, com unidades de medida mundanas e não com os critérios evangélicos, a medida sem medida do amor do Cristo e da fé Nele leva a falsas soluções que de nada aproveitam para o Reino. Em uma visão cristã não é grave morrer, desde que se possa morrer como semente do Reino. E nisto, ao menos em nossa Ordem, temos grande necessidade de nos ajudar e de nos sustentar mutuamente, sobretudo na mútua ajuda entre os superiores. Onde isto ocorre, percebo que as comunidades conseguem morrer com as cores festivas do outono e pode-se ver a chegada do inverno com a esperança de uma primavera, seja qual for.

O problema de muitas comunidades é que, freqüentemente, tendo perdido o sentido do que significa ser comunidade, vivem em uma profunda falta de unidade, não somente entre irmãos e irmãs, mas na própria vida comunitária. É aqui que a falta de mística gera uma falta de unidade comunitária. Somos livres e fecundos somente se, em nossa vida e nossa vocação, não perdemos de vista qual é o centro de unidade ao qual podemos tudo trazer, mesmo o que nos divide, interior e exteriormente. Uma boa comunidade monástica não é uma comunidade de anjos, mas de homens e mulheres que se entreajudam a tudo levar a uma unidade no Cristo. Não é uma boa comunidade monástica aquela em que se é formado perfeitamente em um ou outro aspecto da vida ou da vocação, mas não para a unidade no Cristo de todos os aspectos de nossa vida e de nossa vocação. Os piores mosteiros são aqueles em que se reza bem, mas todo o resto é mal vivido (vida fraterna, trabalho, repouso, etc.).Mas também estão nesta categoria aqueles em que se trabalha bem e se reza mal. É melhor viver mal tudo, mas sendo conscientes de que tudo pode encontrar sua unidade somente em Cristo que ter a ilusão de bem viver a própria vocação porque se vive um só aspecto desta, negligenciando o resto. Isto significaria que Cristo não é o centro de toda a vida.

E, aqui, tenho uma grande preocupação com o atrativo que certas comunidades exercem sobre os jovens quando o que os atrai nelas é apenas um aspecto particular da vida monástica e não a experiência global de comunhão com Deus e os irmãos e irmãs.

Neste sentido, vejo que é preciso um grande esforço de formação integral, não apenas intelectual, ou somente espiritual, ou ainda somente econômica. Tenho consciência de que os momentos e instrumentos de formação, verdadeiramente eficazes e fecundos na Ordem, são aqueles em que os participantes fazem uma experiência de formação integral, isto é, em um ambiente de comunhão com Deus e de comunhão fraterna centradas em Cristo.

Fora disso, mesmo que seja pouco, não vejo senão tensões estéreis em torno do poder que é só aquele grão já morto dos silos do “insensato” da parábola que citei no início. Uma grave esterilidade com relação à urgência da salvação e da vida pela qual o mundo atual clama a nós, clamor, aliás, urgido pelo Santo Padre para nós.

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(*) Palestra proferida por Dom Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral da Ordem Cisterciense, em 18 de janeiro de 2015 na Abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen, Itatinga, São Paulo.
 


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